quarta-feira, 14 de novembro de 2018

"São romãs do meu jardim"

Ao entrar na sala, logo pela manhã, o Af. brindou-nos com um saco cheio de surpresas.
"São romãs", disse. "E estas são as folhas das romãs. Eu quero fazer uma pintura com elas", continuou.


Enquanto comunicava a sua partilha, o Af. contou-nos que as árvores das romãs se chamam romãzeiras. Havia, contudo, quem discordasse desta afirmação. Decidimos, por isso, pedir ajuda a outras salas para encontrarmos a resposta para esta nossa dúvida. Descobrimos que estas árvores se chamam mesmo romãzeiras.



De regresso à sala, e como verdadeiros pintores que somos, seguimos a proposta do Af. e pintamos com as folhas das romãzeiras. Para fazer esta pintura decidimos usar as cores que observamos nas romãs: roxo, amarelo, vermelho e castanho.





Enquanto estas descobertas se iam construindo, uma nova dúvida nos surgiu: Como é que é a romã por dentro? Decidimos, então, abrir as romãs para encontrarmos a resposta a esta nossa dúvida e ao fazê-lo muitas aprendizagens construímos.

"É para comer." (Ma.)
"A casca não se come." (P.)
"É vermelha." (G.)
"Tem graínhas." (Af.)



O percurso que vivemos foi de tal forma significativo e importante para todos nós que quisemos partilhá-lo com os nossos pares de outras salas.



Na nossa sala, as partilhas das famílias surgem com grande fluência. São partilhas que nos desafiam, que nos alimentam, que nos sossegam e que nos alegram. São partilhas que constroem o currículo. São partilhas valorizadas socialmente. São partilhas que nos formam e reformam. São partilhas que se transformam em cultura de grupo.

Obrigado Af. e família por esta partilha tão boa!

domingo, 11 de novembro de 2018

Educar a cuidar. Cuidar a educar

A educação é um ato de cuidar. E, na nossa sala, cuidamos tanto!

Cooperando e ajudando a superar dificuldades ...




... Interagindo e partilhando brincadeiras ...






... Trocando carícias e mimando muito ...







Educamos no cuidado, porque acreditamos que é no afeto que se constroem as aprendizagens. Educamos em afetividade, porque acreditamos que cooperar exige cuidar. Educamos para o carinho, com carinho e carinho. Educamos a cuidar. Cuidamos a educar.

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em casa coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes."
(Ricardo Reis)

sábado, 10 de novembro de 2018

De partilha em partilha construímos o nosso conhecimento

Na nossa escola acreditamos convictamente que "o envolvimento das famílias nas atividades de creche feita de uma maneira informal e participada constitui uma mais valia na promoção da autoestima da criança" (Shonkhoff & Phillips, 2000, citados por Carvalho, Silva & Nunes, 2013, p.63). Por esse motivo, as famílias sentem-se livres para partilharem connosco a sua cultura familiar.

Neste clima de liberdade de partilha, o J. apresentou-nos a sua família através de uma fotografia. E sendo a família o grande suporte e as verdadeiras figuras de referência das crianças, rapidamente esta fotografia contagiou o grupo e deixou todos com vontade de trazerem para a sala fotografias das suas famílias.


Obrigado Xana e o João por nos brindarem com esta foto que tanto nos desafiou!

Pedimos, então, a cada uma das famílias que nos ajudasse no alcance deste desejo e rapidamente as pessoas que íamos vendo chegar à nossa sala de manhã ou no fim do dia se tornaram nossas conhecidas. Rapidamente, a "mãe do V." deu lugar à "Joana", a "irmã do M." deu lugar à "M.", "o pai da Ma." deu lugar ao P." que tem o mesmo nome que o pai do M. e do P. que integra o nosso grupo. É que, afinal, na nossa sala temos muitos nomes repetidos ...





A observação destas fotos de famílias e os diálogos que em torno delas vão acontecendo ajudam-nos a aprofundar o nosso conhecimento sobre todas as famílias que integram o nosso grupo. Com efeito, quando as mesmas nos visitam ou nos brindam com alguma partilha todos nós já as conhecemos bem melhor e imprimimos um grande cuidado e uma imensa empatia no modo como as recebemos. Acima de tudo, o que é dos nossos pares torna-se um pouco nosso, também, e a valorização social que damos a estas partilhas torna-se significativa para todos nós.

Em conversa, a mãe da R. partilhou comigo que a sua filha sabe o nome dos pais de todas as crianças da sala. "É impressionante. Ela sabe mesmo todos", dizia-me surpreendida e orgulhosa.
Registo de observação





Numa conversa de fim de dia, o Ricardo, pai da V., apercebeu-se que na nossa área das ciências temos nozes e partilhou connosco que a V., nesse fim de semana, havia descoberto as nozes na sua forma natural depois de caírem das árvores e que havia adorado. A Marta propos, então, ao Ricardo que partilhassem connosco estas nozes, porque também nós não as conhecíamos.

Na manhã de segunda feira, a V. partilhou connosco estas nozes, que rapidamente quisemos abrir e conhecer explorando.



Claro que quisemos partilhar esta descoberta com a sala da Marta, que divide a área das ciências connosco.


Obrigado Joana e Ricardo por partilharem connosco esta descoberta!

A Joana, mãe do V., partilhou comigo que iria à sala do seu filho mais velho fazer bolinhas de energia. "Será que teria sentido para o grupo do V., também?", questionou-me de seguida. "Claro que tem!", respondi-lhe cheia de vontade de receber a Joana na nossa sala. Combinamos, de seguida, que numa sexta feira de manhã, a Joana viria, então, à nossa sala.

De saco cheio e de sorriso rasgado, a Joana e o V. entraram na nossa sala logo de manhã, cantaram "bom dia" connosco e surpreenderam-nos com um saco cheio de alimentos que não conhecíamos e com uma máquina que fazia um barulho que adoramos. E adoramos, principalmente, porque a Joana nos convidou a mexer em tudo, usar tudo e explorar tudo!





Dentro do saco da Joana vinham, então, avelãs, tâmaras, coco ralado, cacau em pó e uma trituradora para misturarmos todos os alimentos. Depois de tudo muito bem misturado, o objetivo era que fizessemos bolinhas que comeríamos posteriormente. Claro que saltamos a parte de fazer bolinhas e passamos logo para a fase de comer. Estavam deliciosas!




Obrigado Joana por nos ensinar esta nova receita!

A Cl. recusa comer algumas frutas. Em conversa, apercebemo-nos que, na escola, a Cl. come maçã com uma maior facilidade do que em casa. Deste modo, a Simone e o Riacrdo, pais da Cl., presentearam-nos com um cesto de frutas variadas, que pudemos conhecer e explorar na nossa sala. Este cesto continha frutas já bem nossas conhecidas, como a maçã, o kiwi, as uvas e a romã, mas também continha frutas que não conhecíamos tão bem: a ameixa, a manga, a goiaba e a clementina. 



Com a ajuda do Ricardo conhecemos o nome de todas as frutas e, em conjunto, decidimos preparar uma salada de frutas. Claro que, neste dia, a nossa sobremesa do almoço foi preparada por nós e todos a comemos com grande satisfação, incluindo a Cl.




Obrigado Simone e Ricardo por esta partilha tão saborosa!

A sala da Marta realizou um projeto sobre corais, que, depois de terminado, expos na porta da sua sala. A Mónica, mãe do Af., partilhou connosco que têm na sua casa vários corais, que podiam partilhar connosco.


Numa das nossas reuniões da manhã, o Af. partilhou connosco estes corais, que integramos na nossa área das ciências e que temos vindo a explorar.


Obrigado Mónica e Nuno por nos ajudarem a construir a nossa área das ciências!

A família é a primeira instância educativa de todos os seres humanos. Não obstante, a aprendizagem das crianças é construída através da influência que os diferentes meios que a criança integra detêm sobre si. É, nesse sentido, que a família e a escola se devem entender como parceiras. É, neste sentido, que todos nos temos construído como grupo. Um grupo que se apoia, que se desafia, que se acrescenta e que se agradece. Um grupo que se conhece, que se valoriza e que se felicita. Um grupo composto pelas crianças, pelas suas famílias e pela equipa da escola, porque todos nós somos responsáveis pelas aprendizagens uns dos outros.

Obrigado famílias por todas estas partilhas!

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Mas, afinal, onde é que nós moramos?

A sala da Marta B. realizou um projeto sobre casas, que partilhou connosco. No seguimento desse projeto, ofereceram-nos diferentes imagens de casas que trouxemos para a nossa sala.

Na reunião da manhã, observamos as imagens que nos tinham sido oferecidas e dialogamos sobre as mesmas. Rapidamente compreendemos que, nestas imagens, conseguíamos observar duas tipologias diferentes de casas: vivendas e prédios.


Ao perceber o nosso interesse, a Drica propos-nos que fossemos descobrir se moramos em vivendas ou em apartamentos.
Lançamos o desafio às nossas famílias de trazerem para a nossa sala fotografias da nossa casa e iniciamos, assim, a nossa pesquisa.

Dia após dia as fotografias das nossas casas foram entrando na nossa sala e foram-se apresentando como o suporte das nossas comunicações. 





Partilhamos com os nossos pares a fotografia da nossa casa, dissemos-lhes em que casa moramos e, até, o que encontramos na nossa casa.

"É a minha casa. Tem uma piscina." (G.)
"É a minha casa. Estes são os vizinhos." (A.)
"Eu moro numa vivenda" (L.)

O espaço é, na nossa sala, entendido como um local "de encontro e de atividade partilhada, onde se fazem fluir circuitos de comunicação sobre as vidas que se cruzam diariamente, as paredes contam as vidas da creche ... para que crianças, famílias e profissionais se envolvam numa construção mútua de significados e de aprendizagens, fazendo conexões entre mundos" (Folque & Bettencourt, 2018, p.127). Por esse motivo, decidimos expor as fotografias das nossas à porta da nossa sala, para partilharmos com a comunidade algo que nos é tão importante.


Por termos feito esta exposição descobrimos, por exemplo, que a R. e o J. são vizinhos, mas, curiosamente, nunca se tinham cruzado. Descobriram-no naquele momento. Com esta exposição e com os diálogos que íamos realizando em torno das fotografias que nos chegavam, a casa de cada um de nós tornou-se conhecida para os demais e, rapidamente, todos nos sentimos capazes de dialogar sobre estas casas, apresentando-as a quem de novo entrava na nossa sala.

A Ana foi à nossa sala. Ao observar as fotografias das casas que se encontravam à porta da sala perguntou a R. do que é que se tratava. R. apresentou cada uma das casas que se observava nas fotografias, referenciando a criança que habitava a mesma. Referiu, até, alguns pormenores mais específicos de algumas destas casas.
Registo de observação

Ainda que algumas fotografias não nos tivessem chegado, os diálogos em casa foram espelhando estas descobertas e, com efeito, mesmo as crianças que não nos trouxeram as suas fotografias sabiam contar-nos se moravam numa vivenda ou num apartamento. Questionaram as suas famílias e, sempre de forma muito entusiástica, partilharam connosco a resposta que haviam descoberto. A participação é, sem qualquer margem para dúvidas, "um meio de aprendizagem com valor em si mesmo e um direito fundamental da infância que reforça os valores democráticos" (Tomás & Fernandes, 2011, p.259).

Depois de muito conversarmos quisemos, ainda, saber se moram mais crianças em vivendas ou em prédios e, para isso, fizemos dois conjuntos: o das vivendas e o dos prédios. Descobrimos, então, que vivem mais crianças em prédios (11 crianças) do que em vivendas (2 crianças).



Ao envolvermo-nos de forma tão entusiástica e ativa neste projeto o sentido de pertença ao grupo aprofundou-se verdadeiramente. Tornamos o eu em nosso. Demos significados ao que era dos outros, atribuindo-lhes sentidos conjuntos. Cooperamos e aprendemos, porque é em cooperação que construímos o nosso conhecimento.

"Quando as crianças desenvolvem um sentido de pertença ao contexto e lhes são oferecidas oportunidades de participação, mais facilmente se envolvem, revelam bem estar emocional e motivação para aprender."
(Luís, Andrade & Santos, 2015, p.521)

Referências bibliográficas:
Folque, M. & Bettencourt, M. (2018). O Modelo Pedagógico do Movimento da Escola Moderna em Creche. In Oliveira-Formosinho, J. & Araújo, S. B. (Orgs.). Modelos Pedagógicos para a Educação em Creche (pp.113-138). Porto: Porto Editora.

Luís, J. F. Andrade, S. & Santos, P. C. (2015). A atitude do educador de infância e a participação da criança como referenciais de qualidade em educação. Revista Brasileira de Educação, 61(20), 520-541.