domingo, 17 de fevereiro de 2019

Um saco de frutas ou um saco de surpresas?

A semana começava e mal sabíamos o que nos esperava.
O J. e a sua mãe Xana entraram pela nossa sala, na segunda feira de manhã, com uma surpresa para todos nós: um saco cheio de laranjas e uma caixa de uvas. Estas frutas haviam chegado a casa do J. pelas mãos dos seus avós e, por serem muito deliciosas, decidiram partilhá-las connosco.


Em grupo acordamos que comeríamos as uvas como sobremesa do almoço e que com as laranjas faríamos um sumo delicioso.


E porque os compromissos são para cumprir, pusemos mãos à obra, preparamos as nossas barrigas para o que aí viria e demos início a estes momentos de cultura alimentar.


Com um saco de laranjas tão cheio, e sabendo previamente que estas laranjas eram mesmo muito deliciosas, convidamos as salas da Marta B. e da Marta R. para fazerem o sumo connosco e para o provarem, também. Neste momento de confeção, as tarefas foram sendo distribuídas e, todos juntos, fomos ajudando a espremer as laranjas na máquina, a distribuir os copos de sumo, a deitar as cascas da laranja no lixo. No final, todos agradecemos entusiasticamente ao J. por esta partilha que nos deixou de paladar apurado.


Num currículo que é emergente, num contexto em que a criança e a sua família são entendidas como atores educativos as experiências e as aprendizagens constroem-se diariamente e em cooperação.

Obrigado J. e família por esta partilha digna de uma estrela Michelin!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

"Carolina, eu sou o mais crescido!"

Ao entrar na sala, logo pela manhã, sou abordada com um diálogo que a todos nos contagiou:

"Carolina, eu sou o mais crescido da sala!", interpela-me P.
"Não, não, o mais crescido sou eu!", contesta Ar.
"Não, não. Eu é que sou! E se puser o cabelo assim [levanta o cabelo], ainda sou mais crescido!", continua P.

O diálogo iniciado por P. e por Ar. rapidamente nos contagiou. De tal forma que, rapidamente, houve quem se pusesse em cima da cadeira para tentar chegar mais alto ...

Mas, afinal, quem será o mais alto da nossa sala?
Foi isso que nos propusemos a descobrir!

Na nossa biblioteca de sala temos uma história de Leo Lionni e que se chama "Pé Ante Pé". É uma história que fala, precisamente, do comprimento de alguns animais e, por isso, adotamos a estratégia da lagarta desta história para nos medirmos uns aos outros: medirmo-nos com os nossos pés.

Com a ajuda da Raquel, descobrimos que os nossos sapatos têm números diferentes, porque os nossos pés também têm tamanhos diversos. Percebemos, então, que teríamos que escolher um único pé para nos medirmos. Escolhemos, então, o pé da Luísa como a nossa medida.

Pé ante pé e deitados no chão, a Luísa lá nos foi medindo e nós fomos descobrindo quem é que poderia ser o mais alto.


Neste processo descobrimos, também, que a Luísa e a Gabriela tinham um pé do mesmo tamanho. Decidimos, então, que seria a Gabriela a decalcar o seu pé pintado nas folhas, para que, posteriormente, pudessemos montar o gráfico que nos iria ajudar a descobrir as nossas alturas.


Já com o gráfico todo montado, sentamo-nos a observá-lo, a dialogar sobre ele e as aprendizagens foram, assim, sendo evidenciadas:

"O V. e a L. são mais baixos do que eu. Eu também sou alto" (J.).
"O J. é mais baixo do que o Ar. O Ar. é mais alto do que o J." (Af,)
"O P. é mais alto do que eu." (L.)
"Sou mais baixa do que a Mi." (Ma.)
"Sou mais alto do que o M." (V.)
"O Ar. é mais baixo do que eu. Eu sou o mais alto." (P.)
"Sou mais alto do que a Ma." (Ar.)
"Eu sou mais alto do que o V." (M.)
"A Cl. é mais alta do que eu e o P. e o J. A G. é mais baixa do que eu e o Af. e o V. e o M." (R.)
"V., tu és o mais baixo?", pergunto. "Sim!", responde V.

Todos juntos chegamos, ainda, à conclusão de que:

O P. é o mais alto da nossa sala.
O V. é o mais baixo da nossa sala.
O J. e a L. são da mesma altura.


Mesmo agora que já descobrimos quem é que é o mais alto da nossa sala, as descobertas e as representaçãoes gráficas continuam:

"Af., o que é que estás a fazer?", pergunto.
"Estou a desenhar as alturas", responde-me.


"Cl., o que é que desenhaste?", pergunto.
"As alturas", responde-me.


"Uau, Ma., está mesmo giro o teu desenho. O que é que é?", pergunto.
"São as alturas", responde-me.


Seguimos, agora, com a certeza de que "o importante é o processo, o caminho que se percorre e não tanto o ponto de partida ou de chegada" (Cruz, Ventura, Rocha, Peres & Sousa, 2015, p.36). Seguimos, agora, com a certeza de que com a inquietação do P. e do Ar. redescobrimos o nosso corpo, conhecemos e compreendemos conceitos matemáticos, exploramos uma pintura com os nossos pés, observámos, desenhámos e dialogamos. Seguimos, agora, com a certeza de que ser mais alto ou mais baixo é, apenas, um adjetivo. O importante é a construção cooperada de aprendizagens que vivemos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Das panquecas ao desenvolvimento moral

Os diálogos são recorrentes na nossa sala e apresentam-se, cada vez mais, como momentos privilegiados para a construção ética e moral de cada um de nós. O lanche de hoje, que é sempre um momento rico em diálogos e interações, fez-se pautar por um momento de reflexão e de crescimento conjunto.

Na semana passada fizemos panquecas. Porém, o P. saiu mais cedo e não as provou.

"Carolina, podemos fazer panquecas outra vez, porque eu não comi?!", pergunta-me.
"Eu não sei. Eu acho que podes perguntar isto a todo o grupo e vemos, então, o que é que todos nos dizem", respondo-lhe e apoio-o, de seguida, a captar a atenção do grupo.

"Podemos fazer as panquecas outra vez?", pergunta P. a todo o grupo.
"Não!", respondem M. e J.
"Porque é que acham que não?", pergunto-lhes.
"Porque eu não gosto de cenouras", responde J.
"Mas as panquecas não levam cenouras", digo-lhe enquanto lhe mostro a receita que seguimos.
"Mas eu não quero!", continua J.
"Nem eu!", apoia M.
"Então, vamos lá pôr-nos no lugar do P. Vamos lá imaginar que, por exemplo, tu, J., não tinhas vindo à escola no dia em que fizemos panquecas. Tu não gostavas que nós as voltassemos a fazer para tu provares?", desafio.
"Não, porque eu não gosto muito de panquecas", justifica J.
"Então e tu, M., não gostavas?", continuo.
"Sim", responde-me M.
"Então, como é que ficamos? Acham que repetimos as panquecas? O P. tem esse direito!", questiono.
"Sim!", respondem todos, incluindo J.

O pensamento de cada um de nós, a consciência sobre nós próprios e sobre os outros, bem como o desenvolvimento moral de cada um são, gradualmente, construídos com diálogos como este. Diálogos que surgem de interações genuínas, que promovem a nossa reflexão e que desafiam as nossas próprias certezas. De facto, é este processo de "racionalização dos comportamentos que faz com que as crianças se transformem, formando-se umas às outras" (Serralha, 2007, p.180). É neste clima de ambiente democrático que os princípios humanos de cada um se constroem e se revestem de significado.

A moralidade é, de facto, um processo que se constrói em cooperação e em negociação.

Referência bibliográfica:

Serralha, F. (2007). Conselho de Cooperação Educativa. In A Socialização Democrática na Escola: o desenvolvimento sociomoral dos alunos do 1ºCEB (pp.179-188). Tese de Doutoramento. Universidade Católica Portuguesa: Lisboa.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Uma manhã de culinária

Os diálogos de planeamento são constantes na nossa sala, uma vez que os mesmos permitem que as crianças beneficiem "da sua diversidade, das capacidades e competências de cada criança, num processo de partilha facilitador da aprendizagem  e do desenvolvimento de todos e de cada um" (Silva, 1997, citado por Vala & Guedes, 2015, p.57). As quintas feiras de manhã são dedicadas à cultura alimentar na nossa sala. Esta semana planeamos em grupo, logo na segunda feira, que faríamos panquecas no momento de cultura alimentar desta semana. Mal sabíamos, contudo, a manhã de culinária que nos esperava.


Ao iniciarmos a reunião da manhã, a G. apresentou-nos uma caixa com tangerinas que trazia da sua casa. Queria ensinar-nos a descascá-las e, por isso, sem permitir que nos perdêssemos em grandes diálogos, disse "descacam-se assim, com as mãos". Distribuiu, então, as tangerinas pelos seus pares, que a observaram atentamente para descobrirem como é que as mesmas se descascavam. Com a tarefa cumprida, era, agora, tempo de comermos tangerinas como reforço da manhã.


Ainda nesta reunião da manhã, a Ma. partilhou connosco que tinha trazido bolo para partilhar com todos nós. Abriu, então, a sua lancheira e, do seu interior, retirou duas fatias de bolo, que partiu em pedaços mais pequenos e distribuiu por todo o grupo.



De barrigas saciadas e de apetite aguçado, arregaçamos as nossas mangas e seguimos com direção ao refeitório da nossa escola. Chegara o tão esperado momento: o de cozinhar as panquecas! Com todos os alimentos preparados, seguimos os passos da receita e confecionamos as nossas panquecas. À hora do lanche, a Drica ajudou-nos a cozinhá-las na frigideira e seguiu-se, então, o mesmo mais ansiado: provar e saborear as deliciosas panquecas. E que boas que estavam!


Ao longo de todos estes momentos, "quero mais!" foi a frase que mais se fez ouvir. A ela segui-se, sempre, uma explicação de que só devemos repetir uma comida quando temos a certeza plena de que todas as pessoas que partilham esta refeição connosco já a provaram. É por aprendizagens como estas que denominamos estes momentos de cultura alimentar e que lhes concedemos tanta importância. É por diálogos como estes que acreditamos que as crianças constroem "o seu pensamento individual, coletivamente" (Artur, 2005).

Na nossa escola acreditamos nas crianças! Entendemo-las como seres competentes, dotados de saberes e coconstrutores da nossa cultura. Na nossa sala valorizamos, por isso, as partilhas que nos chegam de casa e entendemo-las como a base do currículo emergente em que tanto acreditamos. Na nossa escola defendemos convictamente que "a escola, como a vida, conjuga-se sempre no plural, acrescenta-se no diverso e desafia-se no complexo" (Peças, 1999, p.56). Acreditamos, por isso,  no poder da cooperação, da vida em comunidade e da valorização da diferença. Acreditamos que as aprendizagens se constroem socialmente e em interação com os outros e com o espaço. Acreditamos que num clima de livre expressão e de valorização da cultura de cada um se constrói a educação. E num clima assim há sempre tempo para um abraço!


E que no nosso processo de construção de aprendizagens nunca nos faltem as partilhas e os afetos.

Referências bibliográficas:

Peças, A. (1999). Uma cultura para o trabalho de projecto, Escola Moderna, 5, 56-61.

Vala, A. & Guedes, M. (2015). A importância das interações na construção das aprendizagens, Escola Moderna, 3, 53-63.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

"Eu quero pintar os pés!"

Na nossa sala várias explorações e descobertas com pés andam a acontecer.
No decurso de uma dessas explorações, o Ar. partilhou com todos nós uma vontade sua:

"Eu quero pintar os pés!"

Rapidamente, esta vontade de Ar. nos contagiou e, por isso, decidimos que, na manhã que temos dedicada na nossa agenda à Educação Artística, iríamos pintar (com) os nossos pés. Esta proposta, que surgiu a uma segunda feira, foi motivo de conversas constantes ao longo de toda a semana e, por isso, decidimos antecipar esta atividade.

Chegado o grande dia, descalçamo-nos, puxamos as calças para cima e pusemos pés à obra.


Das escorregadelas surgiram gargalhadas. Dos pés pintados surgiram sorrisos rasgados. Das mãos pintadas surgiram palmas partilhadas. Das caras pintadas surgiram olhares trocados.


Da proposta do Ar. surgiu um momento de exploração e alegria conjunta. Do "meu" criamos o "nosso" e, pé ante pé, cá nos vamos construindo como e em comunidade. 

"Gostei mais de cair." (M. S.)
"Gostei de não cair." (Ar.)
"Gostei de pintar as pernas. Escorreguei e pus as mãos no móvel e na parede." (Ma.)
 pintei as mãos e, depois, pintei o pescoço." (G.)
"Gostei de pintar as mãos." (Af.)
"Gostei de pintar as pernas." (L.)
"Gostei de não cair." (P.)
"Pintar as mãos e pôr na cara." (M.)
"De atirar a tinta." (V.)
"Gostei de pintar as pernas e o pescoço." (G.)
"Gostei de cair e pintar a cara." (R.)


Pé ante pé cá nos vamos descobrindo com a certeza de que este é o caminho que queremos percorrer.

sábado, 12 de janeiro de 2019

"Afinal ... o gato?"

As idas ao teatro são muito frequentes na nossa sala. Este ano já assistimos a dois espetáculos. No entanto, desta vez foi diferente: recebemos o teatro na nossa escola!

A notícia chegou à nossa sala na segunda feira à tarde. O espetáculo de teatro foi na sexta feira. Os restantes dias da semana fizeram-se marcar pelo entusiasmo e pela vontade sempre presente que este dia chegasse.

"Carolina, o teatro vem à escola!" (Ar.)
"A minha mãe disse que é dia de teatro." (G.)

A sexta feira chegou e, com ela, o espetáculo "Afinal ... o gato?", da Companhia Andante. Sabíamos que seria um espetáculo sobre um gato, mas, afinal, onde é que ele andava?

Durante, sensivelmente, quarenta e cinco minutos, deixamo-nos cativar pelo fantástico mundo de Fernando Pessoa mesmo sem saber que nele tínhamos entrado.

Escutamos poemas cantados.
Ouvimos o rufar dos tambores.
Observamos ações, cenários e movimentos.
Chamamos pelo gato e descobrimos qual a melhor forma para o fazer.
Assistimos e participamos.
Integramos o mundo do espetáculo.
Descobrimos Fernando Pessoa.

Com a Companhia Andante tivemos a possibilidade de viver um verdadeiro momento de animação cultural, que muito nos acrescentou.



No fim, ficou a vontade de que estes momentos de animação cultural se voltem a repetir.

"Carolina, vamos ao teatro?", pergunta Ar.
"Não, querido, já fomos. O teatro foi de manhã."
"Mas porquê? Não há mais?", responde Ar.

É que, afinal, somos felizes por sermos assim e por aprendermos assim na nossa sala.

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
"Gato que brincas na rua", de Fernando Pessoa